Corneta

Cooperativa de Comunicação e Cultura

Centro de Cultura Contemporânea 13 - Rua da Cruz 13
6 fevereiro 2026 - 23 fevereiro 2026
09h às 18h. Inauguração às 18h00

Corneta

 Texto por Luís Cristóvão

Fotografias de Carlos Miguel

 

Há um lado solar da cidade de Torres Vedras que apenas aparece nos dias de Carnaval. Não é um fenómeno meteorológico, não é uma aparição do sol, não se trata sequer de um milagre. Essa luz aparece na cara das pessoas, quando pressentem finalmente poder soltar-se de tudo o que lhes prende os movimentos nos restantes dias do ano. Acontece quando é, finalmente, dia de sermos quem realmente queremos ser. 

 

Não espanta que tantos entre nós se desgastem durante um ano na ansiedade desse Carnaval que está por chegar. Há uma espécie de saudade para a qual faltará uma outra palavra que designe essa ausência do Carnaval em nós, de tão presente que sempre o temos ao longo de todo o ano. Naquilo que o Carnaval nos proporciona e, ao mesmo tempo, que nos retira, por não nos permitir viver nele o tempo inteiro. 

 

Esse perseguir do Carnaval por chegar talvez possa explicar como é habitualmente sisuda uma cidade que, nos certos dias do ano, se torna tão sorridente, brincalhona, apaixonada, trapalhona. Todas as energias vitais do sorriso se concentram nessa semana em que nos dedicamos a uma liberdade que se poderia dizer desconhecida, mas cujas raízes estão bem identificadas. Porque quando o Carnaval se assenta na nossa mente, é uma nova pessoa que renasce, se solta da casca, sai à rua. 

 

Se cada um adota o seu calendário na relação que determina com o Carnaval, antecipando-o ou prolongando-o conforme a sua sede de máscara ou de resistência nela, o início do festejo é uma espécie de fronteira sagrada da qual não já não há regresso. Nessa manhã se separam definitivamente os continentes do antes e do depois. As terras movem-se, as guardas soltam-se, os passos definem-se. Nessa direção imparável a que o Carnaval nos impele de vez. A esse sol que nos toca e do qual seremos mensageiros durante cinco (ou seis) dias. 

 

Foi desse lado solar que o Corneta se inscreveu na história do Carnaval. Na consolidação do humano numa figura de enorme paixão e extrema habilidade de se fazer próximo. Nesses dias, os que nos sobram nas imagens desta exposição, o Corneta era todo esse amor que sentia pela sua terra, pelas pessoas que aqui viviam ou visitavam, esse enorme sorriso que chegava aos outros porque nascia de um qualquer lugar de pureza que o Carnaval sabe inspirar nos torrienses. 

 

O Corneta, que tomou todas as personagens ímpares da nossa tradição mais popular, demonstrou-se essência carnavalesca. O amigável palhaço, que ora chora ora ri, cara séria de sucesso na forma como se aproxima de cada projeto futuro de Carnaval e lhe demonstra, portas abertas, o que o Carnaval é. A central Matrafona, de que se apoderou ao melhor jeito trapalhão e lhe devolveu essa sensualidade única de presença carnavalesca na inversão proposta dos papéis. Em suma, o mensageiro desse brilho que só o Carnaval comporta em nós. 

 

Data: 6 fevereiro 2026 a 23 fevereiro 2026
Dia da Semana: Segunda | Terça | Quarta | Quinta | Sexta |